Mostrando postagens com marcador Schubert. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Schubert. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sexo Gratis e Fácil

Eu queria aproveitar o título desta postagem para divulgar mais uma vez a primeira série do ciclo "Contrapontos Vienenses", que se inicia hoje na Sala Cecília Meireles. O diretor da sala João Guilherme Ripper disse que ainda existem muitos ingressos disponíveis. No programa, serão apresentadas obras de três compositores que fazem parte com mais frequência dos repertórios das salas de concerto (Brahms, Schubert e Beethoven) intercaladas com obras dos compositores da Segunda Escola de Viena (Schoenberg, Berg e Webern), cujo repertório provavelmente tem, entre as peças a serem interpretadas, algumas ainda inéditas no Brasil. Esta primeira série do ciclo foi dividida em: Quinta-Feira - recital; Sexta-Feira - quartetos de cordas; Sábado - orquestra.

A Sonata Opus 1 de Alban Berg não é uma obra do período dodecafônico, nem é típica da forma clássica com três ou quatro movimentos. Consiste em um único movimento em Si menor, fazendo uso frequente do cromatismo, vagando por diversas tonalidades, dando uma grande sensação de instabilidade. Nas Três Peças Para Piano de Schoenberg, composta em 1909, a harmonia tradicional é completamente abandonada pela primeira vez, representando uma grande revolução musical. Já Variações para Piano Opus 27 de Webern, é uma obra essencialmente dodecafônica, e representa um complexo e engenhoso trabalho de "geometria" serial.

Abaixo está disponibilizada a Sonata Opus 1 de Alban Berg, interpretada por Glenn Gould no piano. A primeira peça você pode ver na minha postagem do dia 28 de junho, também com Glenn Gould (Variações de Webern - Opus 27). Da terceira obra, as Três Peças para Piano de Schoenberg, só consegui o primeiro movimento, que também está abaixo, com partitura.



A programação:

Quinta-Feira, 16 de julho 2009 às 20:00h

Paulo Gori, piano.

Programa

Webern - Variações Op. 27.

Alban Berg - Sonata Op. 1.

Schoenberg - Três peças para piano Op. 11.

Brahms - Intermezzi Op. 117.


Sexta-Feira, 17 de julho 2009 às 20:00h

Quarteto de Cordas Raga ( Adonhiran Reis, violino. Alceu Reis, violoncelo. Gabriel Marin, viola. Ricardo Amado, violino. ).

Gabriella Pace, soprano.

Programa

Schubert - Quartettzats.

Schoenberg - Quarteto Op. 10.

Beethoven - Quarteto Op. 130.


Sábado, 18 de julho 2009 às 17:00h

Orquestra Sinfônica Brasileira .

Daniel Guedes, violino. Laurent Campellone, regente.

Programa

Webern - Seis peças para orquestra.

Alban Berg - Concerto para violino.

Brahms - Sinfonia N. 4.


R$ 1 (estudante da rede oficial de ensino de música). R$ 10 (pl. sup.).: R$ 20 (pl.) Há meia-entrada para estudantes e idosos.

Largo da Lapa - 47 - Centro - Rio de Janeiro - RJ - 20021190 - 21-2332-9176 - ramal 21

domingo, 12 de julho de 2009

O sistema tonal 1


Para os dias 16, 17 e 18 de julho a Sala Cecília Meireles organizou o ciclo vienense, com a execução de obras de compositores que residiam em Viena em dois períodos diferentes e igualmente importantes. Obras de Brahms, Schubert e Beethoven serão apresentadas intercaladamente a obras de Schoenberg, Berg e Webern. Os primeiros são representantes do auge do sistema tonal, enquanto os últimos promoveram sua ruptura e criaram uma nova linguagem, o dodecafonismo.

O objetivo do ciclo é contrapor as duas linguagens e ao mesmo tempo ressaltar alguma possível continuidade. Mas para entender o que significa essa ruptura, é preciso compreender o que é essa música tonal cuja preponderância perdurou por quase quatro séculos.

A escala que a música ocidental moderna utiliza tem origem no engendramento da série harmônica, que nada mais é que um fenômeno acústico da natureza. Uma corda vibrando em certa frequência ressoa também outras frequências que são seus múltiplos. Dividindo esta mesma corda no meio, ou em 3 partes, ou em 4 partes, e etc., obtem-se também esta série de freqüências, que chamamos de série harmônica. Os harmônicos seguem a seguinte ordem, a partir de uma nota inicial arbitrada (começamos por dó):

dó (uma oitava acima) – sol – dó (duas oitavas acima) – mi – sol (uma oitava acima do primeiro sol) – etc.


Em outras culturas, as diversas escalas e suas subdivisões também foram originadas pela observação deste fenômeno, diferenciando-se no desenvolvimento, seguindo cada povo a sua cosmogonia, a sua tecnologia e outros traços de cada sociedade. Em muitas civilizações diferentes, na áfrica, América ou Ásia, quase totalmente isoladas por terra ou por mar, certa escala primeira, a escala pentatônica, originada a partir do encadeamento das quintas (o segundo harmônico) está presente. Se, por exemplo, tomarmos fá como nota inicial, o segundo harmônico será dó. A quinta de dó é sol. A quinta de sol é ré e de ré é lá. Assim, temos fá, dó, sol, ré e lá. Sequenciando o resultado temos:

fá – sol – lá – dó – ré.

Percorrendo esta escala no piano podemos recordar certo sotaque oriental, de música chinesa, e, dependendo do timbre, ritmo, instrumentos, etc., ele pode nos remeter à música da áfrica subsaariana ou até mesmo ao Blues. E a escala permite um encadeamento livre, a partir de qualquer nota, em uma circularidade fácil e natural.

A escala diatônica, célula básica da música ocidental, também surge a partir desta associação de quintas, chegando ao nosso familiar dó-ré-mi-fá-sol-lá-si. Como a relação intervalar da escala é desigual, a partir do estabelecimento de qual nota é a nota inicial (tônica) pode-se obter sequências com coloridos diferentes, os modos, que eram usados conforme se intencionava conferir um aspecto sonoro particular para cada peça. É a chamada música modal. Durante a Idade Média os modos utilizados foram estes:

Intervalos

1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom: Jônio

1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom: Dórico

½ tom - 1 tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom -1 tom: Frígio

1 tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom: Lídio

1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom: Mixolídio

1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom: Eólio

½ tom - 1 tom - 1 tom - ½ tom - 1 tom - 1 tom - 1 tom: Lócrio

Exemplos

dó - ré - mi - fá - sol - lá - si: Jônio

ré - mi - fá - sol - lá - si - dó: Dórico

mi - fá - sol - lá - si - dó - ré: Frígio

fá - sol - lá - si - dó - ré - mi: Lídio

sol - lá - si - dó - ré - mi - fá: Mixolídio

lá - si - dó - ré - mi - fá - sol: Eólio

si - dó - ré - mi - fá - sol - lá: Lócrio

Mas as duas notas adicionais da escala diatônica nos trazem novos problemas, que a escala pentatônica não possui. Primeiramente, ela cria dois intervalos de meio tom, mi/fá e si/dó. Experimente tocar estas notas ao mesmo tempo e ouça a dissonância. Segundo: ela estabelece a existência do trítono, que é o intervalo de três tons inteiros, como o de fá e si. Há uma dissonância mais forte que entre mi/fá e si/dó. Este intervalo foi chamado durante a Idade Média de "diabolus in musica". Enquanto as notas da escala pentatônica podem se relacionar e trabalhar em conjunto sem maiores problemas entre si, pois não possuem o trítono nas suas relações intervalares, na escala diatônica temos dissonâncias que tornam complexa esta relação, demandando maior cuidado e regras mais rígidas nos encadeamentos melódicos e na harmonia.

Enquanto os músicos antigos que utilizam a escala diatônica, desde os gregos, passando pelo papa Gregório e até a Baixa Idade Média, produzem suas composições através do uso dos modos escalares evitando o trítono, não existe conflito. A partir do século XV, com a multiplicação das obras polifônicas, estas relações verticais começam a demandar o estabelecimento de pactos que vão culminar na criação da linguagem tonal. E embora os monges católicos tenham evitado o trítono com o diabo foge da cruz (ou melhor, ao contrário), ele é na verdade o motor de todo o desenvolvimento do sistema tonal e da música ocidental a partir do século XV.